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Márcio Silveira dos Santos


Nasceu em Porto Alegre/RS.

É professor-pesquisador com Licenciatura e Mestrado em Artes Cênicas pelo Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente é Doutorando no Programa de Pós-graduação em Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina.

É ator, diretor, dramaturgo e palhaço no Grupo Manjericão/RS. Articulador da RBTR – Rede Brasileira de Teatro de Rua e membro do GT Artes Cênicas na Rua da ABRACE – Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas.

De 2010 a 2014 foi representante da sociedade civil no Colegiado Setorial de Teatro/RS no CNPC – Conselho Nacional de Política Cultural/DF.

E-mail: marccioss@yahoo.com.br

 

A MÃE E O MONSTRO ou de como nos perdemos entre monstros

da nossa própria criação.

Por Márcio Silveira dos Santos

 

Neste domingo 14 de Fevereiro de 2015, o Grupo Ueba Produtos Notáveis finaliza a circulação com o espetáculo solo de teatro de rua A Mãe e o Monstro, por seis cidades com oito apresentações. Além de sua Cidade sede, passaram também por Farroupilha, Porto Alegre, São Marcos, Flores da Cunha, durante os meses de janeiro e fevereiro de 2016.

Hoje encerra na Praça São Bento, Município de Bento Gonçalves, às 18h, onde Aline Zilli viverá mais uma vez a “Dona Coisinha”, uma mulher que sofreu agressões psicológicas e físicas, mas conseguiu superar a situação e agora compartilha sua experiência com o público. A circulação, sempre com entrada franca, foi viabilizada com recursos do Prêmio Financiarte da Prefeitura de Caxias do Sul-RS. O Grupo construiu o espetáculo inspirado no conto homônimo de Guy de Maupassant, escrito no final do século 19, que segundo José Thomaz Brum, tradutor da obra no Brasil pela L&PM, foi um período onde fervilharam debates sobre a extenuação da fé e a falência da ciência e da psicologia da época.

Creio que seja aí que o Grupo acerta o passo nesta encenação, levantando a discussão das “falências” de hoje na sociedade como um todo, tendo como foco condutor a questão da violência contra a mulher, a exemplo do autor francês que em seu conto mostra como uma mulher se transforma em uma fábrica de monstros com o manejo de um espartilho. Fornecendo anualmente crianças disformes aos exibidores de fenômenos bizarros da natureza humana.

Na segunda metade do século 19, era comum a exibição de seres humanos deformados. As barracas, circos, feiras, salões, lotavam de olhares curiosos diante de uma nova anomalia. Jean-Jacques Courtine relata em seu texto “O corpo anormal – história e antropologia culturais da deformidade”, que em 25 de dezembro de 1878 um diretor de um circo solicita ao chefe de polícia de Paris autorização para exibir “uma moça-macaco (microcephalus) da Albânia”.

Seu argumento era de que o fenômeno vivo não representaria repulsa no público e que seria exibido em determinado local de maneira que não ofenderia os bons costumes. O local era um circo de bairro pertencente a um domador de animais que possuía certo status ao protagonizar espetáculos ferozes contra leões furiosos. Courtine elenca uma série de freak shows: crianças xifópagas, mulher barbada, anões, homem-elefante, entre outros, que circulavam pela Europa, gerando muitas riquezas aos “industriais do entretenimento bizarro” como é citado no conto de Maupassant.

Em alguns casos os próprios pais de crianças deformadas circulavam pelos países com shows de horrores. Em 1880, ficou famosa a história de um pai que viajava por todo continente europeu expondo sua própria filha, nas feiras entre macacos e leões para o deleite dos olhares cruéis dos curiosos. Este pai ganhava muito dinheiro com o espetáculo de sua monstruosa progênie: uma criança microcéfala. Mais de um século se passou, a situação é outra, mas é impossível não pensar nos dias de hoje, sobre a grande leva de crianças microcéfalas que nascem no Brasil e já há relatos de pais que abandonam mães de crianças microcéfalas.

Se no passado as “monstruosidades” eram expostas por charlatães, hoje o Grupo UEBA se vale do assunto anormalidade para denunciar os charlatães dos dias atuais e ampliar o debate das causas sociais envolvendo a mulher. Colocam o dedo na ferida e giram o punho aprofundando assuntos que parecem “normais” aos olhos dos cidadãos adormecidos pelo freak show apresentado nas perversas mídias e veículos de comunicação de massa.

O diretor Jonas Piccoli com a sagacidade de um diretor experiente conduz o espetáculo com um severo olhar crítico, sem esquecer a comicidade tão característica em suas encenações. Um espetáculo onde o espectador ri da própria desgraça! Um preciso soco no estômago! Um estandarte símbolo da luta da mulher na atualidade! A atriz Aline Zilli, que vive a personagem Dona Coisinha, mostra sua competência em cena. Um trabalho solo de 45 minutos encenado na rua com suas mais inesperadas surpresas a cada apresentação, definitivamente não é pros fracos.

É possível perceber a maturidade de uma atriz que já havia atuado com esmero nos espetáculos “Radicci e Genoveva” e “As Aventuras do Fusca a Vela”, em repertório no grupo. Aline perfaz a encenação de situações bizarras através do “maior show da terra” como é anunciado por Dona Coisinha com suas quinquilharias, trapos esfarrapados e um andaime, utilizado como trapézio-casa-castelo-prisão. A estilhaçada personagem segue contando fragmentos de sua vida e seu rebento. Aos poucos desfilam pelo olhar atento do público na rua a inocente criança abusada, a tentativa de prostituição, a dança embalada por uma trilha mordaz, a mendiga cega, até a mãe que achava que estava com disenteria, mas que na verdade era a gravidez onde gerou seu monstro.

A dramaturgia coesa, trás à cena uma cidadã que faz parte do mundo dos seres invisíveis à sociedade. Dona Coisinha e sua vida freak-coisa, seu show de horrores, tão reais na atualidade, mostra o que Zygmunt Bauman chama de “Refugo Humano na sociedade” em seu livro “Vidas Desperdiçadas”, aqueles cidadãos a margem da sociedade, seres humanos refugados, que não podem ficar em determinados espaços em função da ordem e do progresso econômico.

Dona coisinha representa os marginalizados por um sistema repleto de bizarrices peculiares. A mulher Dona Coisinha esta no cerne da sociedade assim como todas as mulheres que gritam pelos seus direitos, entre tantas reivindicações justas. Há muito tempo que não é mais possível viver num universo machista-patriarcal-conservador-reacionário que persiste em existir. Envolvidas pelo excelente figurino de Raquel Cappelletto, as fortes imagens-cenas construídas no espetáculo mostram o teor engajado da encenação, a destacar duas: a cena da Dona Coisinha representando a justiça (cega) e sua balança de latão amassado, portando a gravidez de um monstro; e uma Pietá que segura firme seu filho bizarro, demonstrando o amor e o afago carinhoso de uma mãe zelosa e super protetora, enquanto está atenta de olhos inquietos, nervosos e esbugalhados, ao que lhe ocorre ao redor no espaço da rua.

O Grupo Ueba Produtos Notáveis vem concretizando um teatro necessário. Longe de querer criar uma genealogia das monstruosidades em que vivemos, o grupo alça voo nas discussões mais profundas da atualidade. Mostra a dificuldade de aceitarmos as diferenças, entre outros assuntos, pois o anormal é uma questão de perspectiva de quem olha. Para Charcot, ainda no século 19, não havia abismo entre o normal e o anormal, mas elos, pontes: obsessões, alucinações. Creio que hoje ainda vivemos essas pontes e elos, onde os interesses e as necessidades humanas são a fonte do cruel e do monstruoso.

Então, recomendo que você vá assistir ao espetáculo “A Mãe e o Monstro”, do Grupo Ueba, e tome um cafezinho saboroso servido pela Dona Coisinha, pelas ruas deste Brasil.

 

 

 

 

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